Irenaldo Quintans - João Pessoa/PB em 31/08/2009
Um dos meus mestres ginasiais, cujo nome - já se vão três longas décadas – escapa-me neste instante, dizia, em resposta à algaravia da classe depois de aplicar uma dúzia de tarefas para o feriado, cioso do seu papel de educador: “Senhores, tempo é uma questão de preferência; dediquem-se primeiro ao que lhes dará resultados, que fará de vocês cidadãos. Deixem o resto para depois.”
Eu tenho usado aquilo minha vida inteira, aliás, obsessivamente. E não me arrependo. Muito pelo contrário, ao encontrar na Academia, mais tarde, o italiano Pareto, entendi melhor seu postulado graças à austeridade do outro mestre. Na verdade, como concluiu o pragmático padeiro mediterrâneo, há vinte por cento dos nossos deveres que, de tão basilares, requerem oitenta por cento da nossa permanente atenção. Tudo o mais vem por gravidade.
Não é que a vida deva ser apenas de renúncias, como quer “O Avarento” de Molière. É que justamente a dedicação a essa vintena estruturante - não necessariamente pecuniária; antes, uma espécie de pedra filosofal – nos permitirá desfrutar do futebol mais tarde. Fazer o contrário é boicotar-se; é trabalhar para que nada aconteça, ou, na melhor hipótese, que tudo aconteça fora de tempo, o que é a mesmíssima coisa. Cabe a cada um, então, definir o que significa esse quantum primordial para si, dentro da sua lista de projetos. Para Ronaldinho, por exemplo, a bola é prioridade.
Dito isso de modo geral, permita-me o leitor a propositura de uma reflexão particular sobre o tempo que o Brasil (hábito mimetizado, com agravo, na Paraíba) tem dedicado à temática político-partidária, deixando de lado ações genuinamente relevantes e desperdiçando preciosas energias. Não que isso não faça parte do processo democrático; contudo, para o trabalhador, o que é mais urgente? Saber das novas (velhas) diatribes aprontadas por esses eternos infiéis, os congressistas, ou discutir uma maneira de tirar nossos meninos dos semáforos e colocá-los na escola? O que é mais produtivo para a população? Acompanhar movimentos erráticos de candidaturas extemporâneas, lançadas (e negadas) aos quatro ventos por gestores cada vez menos gestores e cada vez mais políticos, ou assistir às lideranças aglutinando-se em torno de um projeto de Estado, o Estado que queremos daqui a dez, vinte, trinta anos?
Minha conclusão é a de que se não renunciarmos o quanto antes à diversão proporcionada por esse jogo sem graça e, pior, sem vencedores, e gastarmos todo o tempo disponível na execução das nossas tarefas básicas atrasadas, levaremos um violento puxão de orelhas de um nada leniente professor chamado futuro, legando aos nossos filhos o porvir sombrio dos alunos que jamais amadureceram.
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