
Indústria verde, digital e mais competitiva no cenário global. Essa é a direção que tem guiado a atuação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em linha com a política Nova Indústria Brasil (NIB). Com ampliação de recursos e novos instrumentos financeiros, o banco tem acelerado o apoio à inovação e à modernização produtiva no país.
O BNDES é uma das instituições que integram o Plano Mais Produção (P+P), principal eixo de financiamento da política industrial, e já superou a meta inicial de R$ 300 bilhões, ampliando sua atuação para R$ 370 bilhões até 2026.
Patrocinador do 11º Congresso de Inovação da Indústria, o banco participa do debate sobre caminhos para fortalecer a competitividade da indústria brasileira. Em entrevista à Agência de Notícias da Indústria, o diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do BNDES, José Luis Gordon, detalha os avanços no financiamento à inovação, os desafios no acesso ao crédito e as apostas para o futuro da indústria.
AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DA INDÚSTRIA - Como a política industrial Nova Indústria Brasil tem orientado o trabalho do BNDES?
JOSÉ LUIS GORDON - Com o lançamento da NIB, a indústria brasileira passou a viver um novo momento, retomando seu papel estratégico como motor do desenvolvimento econômico. O país volta a posicionar a indústria no centro da agenda de crescimento, reconhecendo sua capacidade de induzir inovação, produtividade e geração de renda. Para sua execução, a NIB prevê ações em 3 pilares: i) regulatório; ii) compras públicas; e iii) apoio financeiro.
No apoio financeiro, são oferecidas linhas, em diferentes modalidades, para fomentar o desenvolvimento industrial, coordenadas no Plano Mais Produção (P+P), do qual o BNDES é uma instituição relevante.
O Plano abrange um período de quatro anos (2023 a 2026) e é composto por quatro qualificadores — uma indústria mais inovadora e digital, mais verde, mais exportadora e mais produtiva —que refletem as prioridades estratégicas para o fortalecimento da competitividade. Esses eixos possuem caráter transversal, alcançando todos os setores da indústria e orientando o apoio a projetos capazes de elevar o padrão tecnológico e a eficiência produtiva do país, de modo que os bons projetos serão apoiados.
O P+P previa a disponibilidade de R$ 300 bilhões, com a participação do BNDES, FINEP e da EMBRAPII. Atualmente, além destas instituições, o P+P congrega o Banco do Brasil S/A, O Banco da Amazônia S/A, o Banco do Nordeste do Brasil S/A e a Caixa Econômica Federal, totalizando R$ 681,3 bilhões a serem aplicados até 2026. O BNDES atingiu sua meta de R$300 bilhões antecipadamente, ao final de 2025, e vai colocar à disposição mais R$70 bilhões, totalizando R$ 370 bilhões para a indústria investir ainda mais.
AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DA INDÚSTRIA - Como o banco avalia a disponibilidade de financiamento para inovação hoje no país?
JOSÉ LUIS GORDON - O BNDES tem a inovação como um elemento central do planejamento estratégico e alinha suas ações ao processo de neoindustrialização, orientando-se pelas seis missões da NIB. Nesse esforço, destaca-se a criação de novos instrumentos voltados à inovação e digitalização, em especial a linha baseada na Taxa Referencial (TR), viabilizada por meio da Lei 14.592/2023. A partir dessa base, foi estruturado pelo BNDES o programa Mais Inovação, que ampliou significativamente a capacidade de apoio a projetos inovadores — um tipo de financiamento que, até então, não contava com mecanismos tão eficazes — consolidando a inovação como prioridade na política de desenvolvimento produtivo.
Entre 2023 e 2025 foram aprovados R$ 35,6 Bilhões para apoio à Inovação e Digitalização, com recordes sucessivos em 2024 e 2025. Este montante supera a soma dos 11 anos anteriores (R$ 34,8 bilhões). O crescimento de aprovações de inovação supera qualquer outro período da história do BNDES, representa um marco histórico para inovação industrial no Brasil.
Cabe destacar que o governo federal tem intensificado esforços para promover uma atuação cada vez mais coordenada do Sistema Nacional de Inovação, estimulando a integração entre seus principais atores. Os recursos do BNDES para Inovação se somam aos disponibilizados pela Finep e Embrapii, dentre outros atores, visando atuações conjuntas como as Chamadas Públicas de fomento (biocombustíveis avançados, minerais críticos, centros de PD&I e chamada Nordeste).
AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DA INDÚSTRIA - Quais são as principais dificuldades enfrentadas pelas empresas para acessar os recursos?
JOSÉ LUIS GORDON - O BNDES tem trabalhado de forma incansável para que as empresas, de todos os portes, tenham acesso aos recursos. Um exemplo é a aprovação de garantias às operações de crédito para MPMEs, por meio dos Fundos Garantidores de Crédito. Em 2025 essas concessões de garantias somaram R$ 128,2 bilhões, crescimento de 43% em relação a 2024.
Não menos importante, são as operações indiretas, que agilizam e facilitam o acesso ao crédito, via rede de agentes financeiros parceiros do BNDES. Dentre tantas linhas e programas, destaca-se o subprograma de difusão tecnológica do BNDES Mais Inovação. Por meio dele as empresas podem adquirir equipamentos com tecnologias inovadoras (máquinas 4.0), de bens de informática com tecnologia nacional e que cumpram o Processo Produtivo Básico (PBB) ou ainda a contratação de serviços tecnológicos. A linha, que teve início em setembro de 2025, financiou 2.700 operações de crédito indireto, aportando R$ 4,2 bilhões para apoiar a aquisição de mais de 4.800 máquinas e equipamentos com tecnologias inovadoras.
Nesse mesmo sentido, entre 2023 e 2025, o BNDES aprovou cerca de R$ 9,1 bilhões para inovação voltados às MPMEs — um volume recorde, 106% superior ao observado no período de 2019 a 2022 — reforçando o compromisso do Banco em ampliar o alcance das políticas de inovação também entre empresas de menor porte.
AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DA INDÚSTRIA - Uma queixa comum dos empresários é de burocracia. Como facilitar o acesso aos recursos e, ao mesmo tempo, garantir o rigor na seleção para que o investimento seja realizado nos projetos com mais potencial??
JOSÉ LUIS GORDON - A redução da burocracia passa pela digitalização e automação dos processos de habilitação, análise e contratação, sem renunciar ao rigor técnico. Ações como minuta de contrato automatizada, o dashboard no portal do cliente e o desenvolvimento de ações para simplificar e automatizar as operações no âmbito da esteira Automática permitem tornar o processo mais rápido e transparente para as empresas. Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que existe um trade-off inevitável entre agilidade e compliance, especialmente quando se trata de recursos públicos ou taxas incentivadas, que exigem avaliação criteriosa de aspectos financeiros, ambientais e sociais. A automação e a
integração de dados ajudam justamente a equilibrar esses objetivos: reduzem etapas burocráticas enquanto mantêm os filtros necessários para direcionar o financiamento aos projetos com maior potencial socioeconômico e impacto positivo.
Em linha com esse esforço de modernização, o BNDES tem atuado de forma contínua para ampliar e agilizar o atendimento às empresas, combinando diferentes métodos e canais de operação — tanto de forma direta quanto indireta, por meio da rede descentralizada de agentes financeiros parceiros. Essa estrutura permite maior capilaridade e rapidez na concessão de crédito, como evidenciado em situações recentes que demandaram resposta célere. No caso do Rio Grande do Sul, por exemplo, foram aprovados R$ 19,4 bilhões em crédito para 8.125 operações, enquanto, no âmbito do programa Brasil Soberano, foram aprovados R$ 15,9 bilhões em 1.114 operações.
AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DA INDÚSTRIA - Em quais áreas/segmentos devemos esperar um desempenho melhor do país em curto, médio e longo prazo, tendo em vista os investimentos que o BNDES está impulsionando?
JOSÉ LUIS GORDON - O BNDES tem direcionado seus esforços para setores estratégicos e de maior potencial de transformação, com impactos esperados no curto, médio e longo prazo. São segmentos alinhados com o Plano Mais Produção, que organiza a aplicação dos recursos da Nova Indústria Brasil. O Banco atua de forma plenamente alinhada às diretrizes da NIB, priorizando áreas estratégicas definidas pelo governo federal. Destacam-se o crescimento do apoio do banco em setores como saúde (R$ 9 bilhões entre 2023 e 2025, 97% acima dos quatro anos anteriores), automotivo (R$ 11,9 bilhões, +144%), biocombustíveis (R$ 13,3 bilhões, +204%) e metalurgia (R$ 13,1 bilhões, +248%), evidenciando a intensificação do apoio a segmentos-chave da indústria brasileira.
A inserção externa é destaque com recorde de apoio às exportações em um contexto de exportações totais do Brasil também recordes no ano passado, próximas de US$ 348 bilhões. O apoio do BNDES ao segmento passou de US$ 4,9 bilhões em 2022 para US$ 24 bilhões em 2025.
Ganha força também o eixo de sustentabilidade, promovendo a descarbonização da indústria, com a forte expansão do Fundo Clima, impulsionando setores ligados à descarbonização, como energias renováveis e indústria de baixo carbono. O orçamento do Fundo Clima, de pouco mais de R$ 1,3 bilhões em 2022 passou para R$ 12,5 bilhões em 2025. Entre 2023 e 2025, o apoio no âmbito do Fundo Clima alcançou R$ 23,7 bilhões, um aumento de 1.159% em relação aos quatro anos anteriores, ampliando significativamente o alcance das políticas voltadas à transformação para uma indústria mais verde.
Também houve avanço expressivo no apoio à aquisição de máquinas e equipamentos com tecnologias digitais, da indústria 4.0. Entre 2023 e 2025, o BNDES apoio a aquisição de mais de 85 mil máquinas/equipamentos, com R$ 4,7 bilhões aplicados em micro, pequenas e médias empresas. Adicionalmente, áreas emergentes como inteligência artificial vêm ganhando espaço na carteira do Banco, com cerca de R$ 4,7 bilhões em apoio a projetos, ao passo que a infraestrutura digital segue como prioridade estratégica, com destaque para o uso de instrumentos como o FUST, que já aprovou R$ 2,8 bilhões para expansão da conectividade em 1.223 municípios, além do Funttel e iniciativas voltadas a data centers.
